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La Bohemie

Ele há coisas...

Ontem, depois do jantar e de tantas voltas pela Baixa à procura de um café porreiro, acabámos por nos sentar numa esplanada na rua do Coliseu. Pedimos os cafés e as amêndoas amargas e ficámos a conversar. A rapariga que se exibia lentamente à frente da montra enquanto treinava a sua performance de rua; o cigano que tentava vender Rében a cinco euro; a velha que queria uma moeda, pedia um cigarro e se por ali ficasse ainda me levava metade do ordenado; e o empregado. Este texto é sobre o empregado.

Não lhe sei o nome, tampouco em que restaurante foi, mas não interessa até porque não faço questão de lá voltar. Por vezes pergunto-me se os patrões sabem que tipo de empregados têm a servir às mesas. A verdade é que gosto de um bom empregado, simpático, atencioso, divertido, sorridente, mas há limites para todas estas qualidades. Para mim, há limites e este não os soube medir. Este empregado meteu-se connosco assim que o cigano foi embora chateado por não ter vendido um par de óculos de sol a cinco euros. Temos pena, ainda lhe perguntei se aceitava pagamentos com multibanco, mas a lei cigana só admite notas. O tal empregado meteu conversa, nós metemos conversa e ainda nos rimos um bocadinho. Quando dei por mim já estavam a combinar beber um copo a outro lado quando ele terminasse o serviço, mas essa ideia esvoaçou-se rapidamente. A Márcia pediu-me para lhe mostrar a tatuagem que tenho nas costas e demos início a um valente diálogo sobre piercings e tatuagens - quantos tínhamos, quantos fizemos, os que já não temos ou gostávamos de ter e tititi-tatata. De repente, aparece o rapazito e diz à Márcia «Disseste que já tiveste quantos piercings? Seis? Eu já tive 28.» A M. disse muito depressa que não queria saber onde os tinha, mas o pobre rapaz não se conteve «Tive esta orelha toda furada, tenho este na língua, tive nos mamilos e os outros todos lá em baixo.» Ahhh, era desnecessário, eu não queria saber, não queria ouvir, mas não, a conversa era gira, era de uma animação tremenda e o empregado ainda disse «Uma vez, uma namorada minha depois de coiso, foi à casa de banho e aquilo fez plim.» Opah, a sério? Eu preciso mesmo de saber que o homem anda a pinar e que semeia piercings? Eu preciso mesmo de saber que o empregado que acabara de nos servir tem o pardalito aconchegado por piercings e que as ex-namoradas os regam quando vão ao quarto de banho? Acho que nunca bebi uma amêndoa amarga tão depressa só para não ter de olhar mais para o pinguim. E tenho para mim que a amêndoa ficou tão amarga que vou ter pesadelos até ao final do mês. Ele há coisas...

 

Beijinhos, La Bohemie.

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