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La Bohemie

O carteirista do Martim Moniz.

Quem leu o texto Só Comigo... deve lembrar-se de como tentaram assaltar-me há pouco tempo. Felizmente nada me aconteceu, levaram-me apenas um isqueiro, os sonsos, e vim para casa com uma história para contar. Claro que ainda hoje me dá vontade de arrancar as orelhas ao meu vizinho da frente sempre que o vejo, redobrei o cuidado ao entrar e sair de casa, mas nada com grande emoção. Ontem foi um bocadinho mais grave, mais sério e profissional e espero que isto sirva de alerta para muita gente.

Encontrei-me com duas amigas na estação de metro Alameda e apanhámos a linha verde sentido Cais do Sodré. Fomos em pé tranquilas a falar, a carruagem estava consideravelmente cheia, por isso fui sossegadinha no meu lugar. Mexi uma vez no telemóvel para ver as horas e foi o suficiente para o desenrolar de toda a situação. Descemos na estação Martim Moniz e enquanto subia as escadas retirei o passe da mala, mas esqueci-me de a fechar. Para mim, se há coisa mais stressante enquanto caminho é abrir e fechar a mala - tira as chaves, arruma a carteira, depois preciso do batom, o telemóvel que tocou, alguém que pediu uma pastilha elástica. É todo um ritual que me dá cabo dos nervos, por isso retirei o passe e na esperança de sair rapidamente e guardá-lo logo na carteira, não tranquei o fecho da pala da mala, apesar de ir fechada. Mas os carteiristas são bons, são discretos, estão atentos aos passos da vítima e conhecem demasiado bem todos os truques possíveis para roubar quem quiserem. Depois de subirmos o enorme lance de escadas, a Márcia e a Joana foram para uma cancela e eu fui para outra. Assim que estico o braço para passar o passe senti que alguém se encostava a mim para aproveitar a boleia. Não liguei, hoje em dia até os idosos o fazem e se alguém tivesse problemas seria ele e não eu. Só não sabia é que tinha um carteirista a assaltar-me sem me dar conta. Mas como todas as profissões desta vidinha e da outra, há os bons profissionais e os maus. E este, se tivesse sido contratado por mim era despedido na hora. O homem estava com tanta pressa que me empurrou para sair e eu, que detesto pressas, ainda para mais com pessoas que aproveitam o meu dinheiro para viver à borla, passei-me e dei um passo para trás a ver se o homem acalmava o pardalito. Foi a minha sorte. A minha Mãe diz que eu sou bruta como as portas, mas foi a minha sorte. Assim que o travo, já tínhamos passado a cancela, oiço qualquer coisa cair no chão. Olho e só tenho tempo de agarrar o meu telemóvel. O cabrão tinha conseguido abrir a pala da mala e retirado um Samsung Galaxy maior do que a minha mão que estava dentro de outra bolsa mais pequena. Fiquei parva, fiquei chocada, fiquei furiosa e desatei aos berros com o homem. Não, não foi peixeirada que essa faço-a regularmente. Eu gritei com o homem como nunca gritei em toda a minha vida, encostei-o ao pilar que estava mesmo na saída da cancela e gritei cheia de raiva «Você não me assalta. Você nem se ouse a cruzar-se comigo outra vez que eu rebento-lhe a cara. Era só o que me faltava, nem se atreva a tentar assaltar-me que eu acabo consigo, seu idiota.» O homem ficou furioso, estava a estação toda a olhar para nós, um fedelho a berrar com um matulão encostado a um pilar que acabou por me empurrar e foi à sua vidinha. Sempre pensei que  desatasse a rir quando fosse assaltada, por causa dos nervos e do pânico, mas não foi isso que aconteceu. Nunca me conheci tão possuída, eu que gosto de uma boa discussão, que viro costas e bato com a porta só para não me chatear, eu que tenho um feitio dos diabos, nunca me conheci assim e achei que, por momentos, ia ser espancada pelo carteirista do Martim Moniz. Mas não queria saber, naquele momento estava contaminada de raiva, sem vacina e estava disposta a transmiti-la ao monhé que me tentou roubar o que consegui com o dinheiro do meu esforço e trabalho. Não suporto que me roubem, não suporto. Eu, que toda a minha vidinha fui ensinada a dar e partilhar tudo o que tenho, eu que nunca digo não e dou o que me pedem, não admito que me roubem. O segurança da estação já estava de telefone na mão, veio ter comigo para saber se estava bem e entender o que se passou - vistas bem as coisas, as pessoas aperceberam-se apenas de uma miúda a desatar aos berros sem mais nem menos com um homem - e as minhas amigas ajudaram-se a confirmar se me faltava mais alguma coisa na mala.

Felizmente e mais uma vez correu tudo bem e segundos depois cheguei mesmo a sentir-me envergonhada com a situação. Pedi-lhes desculpa pela minha atitude louca, disse-lhes que sem telemóvel não podia publicar fotos nossas no Instagram, mas confesso que até me soube pela vida deitar cá para fora todo o stress acumulado durante a semana. Mas tenham cuidado, chegámos à altura das festas, das confusões, das multidões, andamos distraídos e nós mulheres temos tendência a usar malas de tiracolo penduradas no ombro por serem mais fáceis de transportar, mas são precisamente as mais fáceis de roubar sem darmos por ela. Assim que cheguei à Mouraria a minha Mãe ligou-me e acho que nunca senti tanto prazer em receber uma chamada. As mães pressentem mesmo estas coisas.

 

Beijinhos, La Bohemie.