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La Bohemie

A coincidência das coincidências.

Tenho quatro textos sobre coincidências: Ele, Sitges, Cartas perdidas no silêncio das palavras e, talvez o mais óbvio, Coincidências da Vida. E com este termino o meu prodígio que tanto atormenta o meu sossego, antes que comece a acreditar em bruxas e magias negras.

Numa qualquer sexta-feira, já a madrugada se fazia sentir sobre o meu corpo, quando desabafei com o P. e o D. o meu enorme desejo de haver uma qualquer aplicação que aniquilasse toda e qualquer forma de ligação com algumas pessoas. Numa era em que as redes sociais e os meios de comunicação nos interligam cada vez mais, eu quero precisamente o contrário, poder carregar num dispositivo e ordenar «Não quero que aquela pessoa me dirija mais a palavra, não se cruze no meu caminho, nem me reconheça se um dia nos encontrarmos num qualquer lugar deste mundo.» Claro que o Pedro disse-me logo que a única hipótese é ter coragem de enfrentar a situação e a minha teoria acabou por desvanecer assim que os meus olhos fecharam de cansaço.

No sábado seguinte, o Duarte convidou-me para ir jantar a casa do F. e da A., um casal amigo, e pelo caminho contou-me como conhecia o Francisco há anos e estiveram sem se comunicar tantos outros. Lembrei-me que também eu tenho amigos há 20 anos e muitos deles não vejo há tantos outros. Pensei concretamente nos amigos que conheci com quatro anos, quando entrámos para o colégio, alguns ainda hoje são os meus melhores amigos, outros vejo-os de vez em quando e há tantos outros que nunca mais vi desde que seguimos o nosso percurso académico. Gostava mesmo de voltar a ver alguns, de perceber como estão diferentes, o que fazem, o que pensam fazer. Outros nem por isso, não me dizem muito, eu também não quero saber muito e se tivesse o tal dispositivo para aniquilar pessoas do meu caminho, daria bom uso ao mesmo.

Quando estávamos quase a chegar, ainda me contou como o Francisco e a Ana tinham uma daquelas estórias de amor que só existem nos filmes, de namorarem, terminarem e muito tempo depois perceberem que só estariam bem um com o outro e viverem juntos desde então. Não consegui deixar de pensar no M., o receio de o voltar a ver, de estar com ele e de reviver todo um passado que decidimos guardar. Depois de tantos anos, de tantas dúvidas e incertezas, sonhos e desejos, depois de tantas reticências, veio o anel de noivado naquela tarde em que estávamos tão felizes. Mas é entre as reticências e o ponto que observamos, interpretamos e aprendemos. É depois de um ponto que olhamos para trás e temos uma perspectiva diferente da realidade, de nós mesmos e dos outros. E há oito meses que desejo uma qualquer aplicação que aniquile toda e qualquer forma de ligação com algumas pessoas.

Mas a parte gira da história vem agora, no preciso momento em que entro em casa do Francisco e da Ana e deparo-me com um grupo de pessoas na sala. Dou um beijo ao Manel e ao Tanner por já os conhecer e cumprimento o resto das pessoas com um simples «boa noite». Sento-me à mesa e começo a jantar. Entre conversas e gargalhadas, alguém levanta-se do sofá e diz «Oh Vasco…» De repente, olho para o outro lado da mesa e desabafo «Vasco? Estás a gozar… não te tinha visto, desculpa.» Ficaram todos muito desconcertados, levantei-me, abracei-o, rimo-nos, e toda a gente ficou admirada como raio estava eu sentada à mesa há meia hora e só depois nos falámos. Eu nem sequer conseguia falar, sentia-me envergonhada, trapalhona, uma verdadeira totó, quando o V. disse «Eu conheço-a desde os quatro anos.» Foi um momento tão bonito, como desconcertante. Tinha acabado de desabafar com o Duarte que tinha amigos há anos e que não sabia deles há tantos outros, que havia pessoas que gostava mesmo de voltar a reencontrar e ali estava ele, mesmo sentado no outro lado da mesa, ali estava o rapaz de quem gostei perdidamente durante anos, tantos anos. Ainda hoje há colegas nossas que se lembram de mim com seis anos a levar a mochila do Vasco na mão enquanto o acompanhava ao autocarro do colégio; ainda hoje há quem se lembre de como gostei dele durante todo o tempo em que estudámos juntos. Nós crescemos mais de metade da nossa vida juntos, todos os dias, os mesmos professores, a mesma turma, os mesmos amigos, as festas de aniversário, as visitas de estudo, os campeonatos desportivos. Foram tantos anos… e naquele momento ele estava ali, tão diferente, à minha frente. Afinal, já não quero uma qualquer aplicação que aniquile toda e qualquer forma de ligação com algumas pessoas.

 

Beijinhos, La Bohemie.