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La Bohemie

Só comigo...

Nunca fui assaltada. Já me roubaram, já me burlaram, já me enganaram. Mas nunca fui assaltada, cara na cara, passa para cá tudo o que tens e o que não tens. Sempre defendi que o que tiver de acontecer, acontece, seja de dia ou de noite, em Lisboa ou na Conchina, é algo meio difícil de evitar, por mais cautela que tenhamos. Por isso, sempre fiz a minha vida normalmente, ando sozinha na rua à noite quando tem de ser, mas também não sou pessoa de andar com os telemóveis à mostra em transportes públicos, à frente de toda a gente, evito andar com dinheiro na carteira, o iphone fica sempre em casa, o samsung tem seguro e não dou muita confiança a quem se cruza comigo. Por vezes paro para dar uma moeda ou um cigarro, mas pouco mais. Acho que a minha cara intimida quem me interroga, seja por ser má ou por me rir. Sim, eu rio muito quando entro em pânico, é estranho.

Uma vez, perto do Mercado de Arroios, um tipo chamou-me  a uns bons metros. Ignorei, fingi não ser comigo, mas acelerou o passo até me apanhar e pensei mesmo que ia ser assaltada àquela hora da madrugada. Mas não, perguntou-me se sabia onde havia uma casa de meninas ali na zona. Fiquei tão perplexa com a questão, com algum receio de me agarrar e levar para um qualquer beco, que respondi-lhe que mesmo ali em cima tinha o Técnico e que costumava estar bem frequentado. O homem riu-se meio tonto, eu ri-me meio parva e fui à minha vida. Acho que é preciso de ter um bocadinho de humor nestas situações, mesmo quando estou com o medo à flor da pele.

Uma outra vez, andava a passear numa rua no Paraguay, a ver bancas de tudo e mais alguma coisa, quando me aparece um grupo de homens a vender viagra, preservativos com música e verdadeiras promessas de me oferecerem material fotográfico e telemóveis a troco de favores. Imaginei-me logo uma pequena Carrie acompanhada das suas amigas quando são chamadas por um árabe que lhes queria mostrar um vasto mundo de malas de pele verdadeira e são acusadas de roubo. Acho que a única cidade onde senti um medo tremendo foi São Paulo. Assisti a situações tão horrorosas que passei duas semanas com uma sensação de insegurança tremenda.

Mas ontem foi diferente, ontem ia sendo assaltada, mesmo a dois quarteirões de casa. Vinha eu calmamente a descer a Av. General Roçadas quando passam por mim três polícias meio agitados, meio atentos a cada pessoa que se cruzava com eles. «Já houve merda» pensei. Continuei o meu caminho quando aparece um tipo à minha frente aos berros com o grupo de amigos:

 

- Mas achas que eu sou estúpido ou quê?

- Ya, puto, por acaso até és. Vês como sabes, é que és mesmo estúpido.

 

E enquanto o círculo de amigos se fechava de volta do tal rapaz, tudo aos berros, tudo com um aspecto de um verdadeiro gang de mafiosos, também eu fiquei trancada. Já fui, pensei.

 

- Miúda, orienta aí um cigarro.

 

Enquanto tirava o cigarro da carteira, já com a certeza de que ao abri-la me enfiavam a mão a tudo o que encontrassem, olhei fixamente para o tal tipo que não se achava estúpido e fiquei perplexa a olhar para ele...

 

- E telemóvel, tens? - perguntou-me um outro.

- Tenho, porquê? Queres fazer uma chamada?

 

A raiva consumiu-me, estava capaz de desatar aos pontapés, aos berros e à bofetada com a mala a toda a gente, mas não, continuei a olhar para o tal miúdo que não se achava estúpido, com cara de má, com cara de dúvida, como cara de «Eu sei quem tu és, mas de onde, caramba? Eu conheço-te...» O miúdo olhava fixamente para mim, eu olhava para ele, eles olhavam para nós, mas bloqueei. Não percebi muito bem o que aconteceu depois, dei comigo a seguir caminho com um isqueiro e cigarro a menos, com o coração a bater a mil, cheia de cãibras nos gémeos, com vontade de mandar toda a gente dar uma volta ao bilhar grande, com um desejo enorme de cair no chão e chorar. O estúpido do puto é o meu vizinho da frente, eu não acredito. É o puto da frente que está sempre à janela a olhar para dentro de minha casa. Não pode ser, o tipo sabe que eu vivo sozinha... estou tramada, pensei. Andei apressadamente até a casa, as dores nos gémeos eram cada vez mais intensas, mas não podia correr o risco de me seguirem até à Alameda. Não sabia se o rapaz me reconhecera ou se apenas olhara fixamente para mim por estar com cara de parva a olhar para ele, não reparei nas caras de todos os outros e não fazia ideia de com que me estava a meter. 

 

Mais uma vez, não cheguei a ser assaltada, mas não gostei da brincadeira. E ficaram-me com um isqueiro, sonsos.

 

Beijinhos, La Bohemie.

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