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La Bohemie

Farinha para os meus ouvidos.

Eu juro que só ia comprar farinha para polvilhar as formas dos queques, mas uma ida ao supermercado com a minha irmã é coisa para levar pelo menos uma hora com muito disparate pegado. Tudo começou com a minha entrada no Pingo Doce a pés juntos, literalmente. Para quem não sabe, o PD de Arroios tem a entrada dos camiões e uma portinha para as pessoas, qual loja da Imaginarium. Acontece que estava um camião a entrar, por isso não tive outra alternativa senão entrar pela porta das pessoas. O que deveria ser uma coisa normal, acabou comigo a embater num mendigo e quase espatifar-me no meio do chão. O senhor, que achou por bem sentar-se mesmo atrás da porta, fartou-se de pedir desculpa mas eu, parva como sempre, desatei-me a rir. As pessoas não entendem, mas quando entro em pânico rio-me, muito, sem parar. Tenho para mim que no dia em que me apontarem uma arma branca para me assaltarem vou rebolar no chão a rir.

 

Eu só ia comprar farinha para polvilhar as formas dos queques, mas a minha irmã lembrou-se de comprar pão e fiambre. Coisa normal, supostamente. Mas não, comprar pão é pior do que comprar um par de calças, «este não que tem muita farinha», «aquele é de cereais e eu não gosto», «quero pão da avó, não saloio», «mas só quero pão da avó se for fatiado», «ah, mas eles já não têm máquina de cortar pão». É o drama. A minha irmã não gosta de manteiga, por isso tem de ser um pão especial, depois não gosta de fiambre da pá, só da perna, e tem de ser fininho, senão sabe mal. Agarrei num pão acabado de fazer e fui para a charcutaria para comprarmos o fiambre que a menina queria para o lanche e esperei que ela tirasse a senha. E ela esperou comigo.

 

- Qual é o número da tua senha?

- Senha? Eu não tenho senha, não tiraste?

- Eu? O fiambre é para ti e eu é que tenho de tirar senha? Mexe-me esse rabo, miúda.

 

Sim, as pessoas olham para nós e devem achar que somos maluquinhas. Assim que chegou a vez da minha irmã, foi o drama.

 

- Boa tarde, queria fiambre da perna PD, por favor.

- Não temos, só da pá e é da Nobre.

- Ah, esse não gosto.

- Pois, mas é o único que temos.

- Então, dê-me 150g fininho, por favor. (chegou a casa e refilou durante meia hora porque estava grosso demais)

 

Nisto, decidi comprar forminhas e pepitas de chocolate para fazer brigadeiros. Mais 10 minutos.

 

- Levo estas formas ou estas?

- Se vais fazer brigadeiros são estas pequenas, essas são para queques e já tens as de metal que estão à espera de farinha.

- E as pepitas? Estas são muitos grandes, são para o bolo de brigadeiro, não são para os brigadeiros.

- Pois, mas aqui só existem estas grandes.

- Mas eu quero as pequeninas.

- Partes estas.

- Agora vou pôr-me a partir pepitas de chocolate?

 

Finalmente vamos buscar o essencial, a farinha.

 

- Nunca sei que farinha levar. Qual é a farinha que a Mãe costuma comprar?

- Todas.

- Pois, mas eu não vou levar todas, só preciso de uma.

- Então leva apenas uma.

- Mas qual? O pacote vermelho, o azul escuro ou o azul claro?

- Ai, eu não percebo nada disso.

- Nem eu... Olha, há aqui pepitas de chocolate pequeninas.

- Então leva.

- Mas agora já tenho aqui as grandes.

- Trocas, Mafalda.

- Mas estas não têm aqui o preço, sei lá qual dos dois compensa.

- Levas os dois e perguntas na caixa.

- E a farinha? Com ou sem fermento? Fina ou grossa? Ai opahhh...

- Leva já esse.

 

A caminho da caixa, voam-me as pepitas de chocolate da mão e começam os ataques de riso.

 

- Faz barriga de grávida, por favor.

- Porquê?

- Porque és a mais gorda e estamos na caixa prioritária e não quero ficar aqui uma hora com os velhos todos a passarem-me à frente.

- Mas esta é a única caixa ímpar e tu não vais para caixas pares.

- Eu sei, eu sei, foste bem ensinada. Agora espeta a barriga e cala-te. (...) Ohhh Táta, trouxeste um pacote de açúcar aberto. Vai lá trocar.

- Aberto? Eu confirmei na prateleira...

- Estás cheia de açúcar nos braços, miúda.

- Açúcar? Isto é a farinha do pão, mana.

- É nada... é açúcar. Estás cheia de açúcar, senhores.

Senhor da frente - Uma menina com açúcar é uma menina doce.

Táta - Ainda mais?

Mafalda - Táta?!?

Táta- Ups, saiu-me.

 

Rio-me, ri-se a minha irmã, ri-se o homem, rio-me ainda mais do riso do homem, ri-se a minha irmã de nós todos e começo a chorar de tanto rir.

 

- Pára que estou a ter um ataque de riso e não consigo parar.

- Nem sei porque disse aquilo, saiu-me.

- É bom que não te saia mais nada que eu não me aguento de tanto rir.

Senhor de trás - Não se preocupe menina, que esse açúcar não provoca diabetes. Olhe para a minha barriga, isto não é do açúcar, não. E é bom ser-se doce.

Mafalda - Nem te atrevas a responder que estou a ter um ataque de riso à frente de toda a gente.

Senhor de trás - Eu é que devia ter prioridade por causa desta barriga. Se acham que as grávidas sofrem, imaginem eu.

 

A minha irmã ri-se...

 

Senhor de trás - Está-se a rir? Acha que isto é fácil de carregar?

Mafalda - Pois, mas foi-lhe fácil ganhar.

 

No momento em que decido conter os disparates, o senhor da frente lembra-se de se despedir de nós recitando um poema. E tenho para mim que não volto ao Pingo Doce de Arroios nos próximos meses.

 

Beijinhos, La Bohemie.

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