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La Bohemie

É um nó que aperta.

É um nó que aperta, que não se desembaraça. É uma espécie de vertigem no abismo do desconhecido. É um nó. Quando me deito, já a lua está demasiado cansada de iluminar a escuridão, fecho os olhos com tanta força para não ver a tua sombra, fria e cinzenta. Cubro-me até ao pescoço com medo que o apertes outra vez, que me sufoques e fique sem ar. A pressão é tanta que oiço os gritos, sinto o sangue a pulsar, as lágrimas a escorrer sobre a face, a pele fria, a cabeça pesada, o corpo morto.

 

  larga-me

 

Sempre soubeste que o teu espírito é demasiado fraco para seres um homem forte. Usas a resistência do teu corpo para destruíres tudo o que se impõe perante a tua silhueta. Amarras fios aos braços frágeis e finos e manipulas como marionetas, obrigadas a respeitar a tua vontade, a ceder os teus caprichos, submissas a tamanha crueldade humana.

 

  solta-me

 

Uma pessoa grande nunca faz mal a uma pessoa pequena e tu és um monstro com traços de carácter imutáveis e irreversíveis. Asfixiaste-me a vida e os sonhos, roubaste-me o sorriso e a vontade de sorrir. As tuas pancadas foram tão fortes que assusto-me cada vez que fecho a porta, como se levasse um murro no estômago e caísse no chão com dores.


 deixa-me

 

Mas essa tua arrogância sempre foi maior do que o teu próprio mundo, destruiu-te lentamente e agora estás farto e cansado da vida que levas, os fios que manipulavas quebraram com o tempo e és um ser solitário, perdido na tua própria desgraça. Estás sozinho e isso sufoca-te a alma. Não soubeste proteger quem mais te amava por direito e já nem o teu corpo robusto te protege de tanta ganância. És um homem menor do que aquele que já foste e ainda sinto a tua mão robusta no meu pescoço, débil e fraco. É um nó que aperta, que não se desembaraça.