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La Bohemie

Eu quero uma casa com quintal.

Quando me dizem que sou uma espécie de menina da cidade como a Carrie do Sex & The City, dá-me vontade de rir com tamanha estupidez, porque sempre fui menina do campo. Vivi nove anos numa quinta com animais, pomares e tractores, com idas ao galinheiro e alergias diárias por causa das urtigas, da casa com caseiros, salamandra e água puxada por uma bomba. Sempre fui a menina que chegava do colégio, tirava a farda e enfiava umas plainas para ir montar a cavalo ou calçava umas galochas para ir brincar no meio da terra. Muitas vezes até andava descalça como uma pequena ciganita. Cresci no meio do nada, os dias eram passados enfiada num colégio cheio de regras e restrições, um pai  constantemente em congressos e reuniões em Lisboa e uma Mãe que chegava exausta das consultas. Fora as actividades extracurriculares, era na quinta que eu gostava de fazer corridas de bicicleta com o neto dos meus vizinhos, guerras de laranjas podres com os meus irmãos, subidas às árvores, apanhar azeitonas com vizinhos de outras quintas, colher rosas para a minha Mãe e chegar a casa num pranto porque ter um espinho enfiado no dedo.

Um dia disseram-nos que íamos mudar para uma casa na cidade e não achei muita piada. E os amigos da escola? E o neto dos vizinhos? E a piscina e o barco e o meu quarto de brinquedos? Onde iam enfiar o forno de lenha, os tractores e as galinhas numa casa na cidade? Para mim uma casa na cidade era um mísero apartamento onde dormiam os filhos todos no mesmo quarto e só cabia uma televisão com uma consola de jogos. Pensava ser o fim e que ia ser infeliz para sempre. Foi o drama. Até que a dita casa era uma vivenda com piscina, jardim, terraço, campo de ténis e sala de jogos, no campo, com cidade a dois minutos e praia a cinco. Esqueci o forno de lenha em três tempos. Continuei enfiada no colégio, mas tinha muitos mais vizinhos com quem brincar e andar de bicicleta, tinha lareira para o inverno e piscina no jardim para o verão.

Nove anos depois saí de casa, não aguentava mais conviver com o meu pai, as galochas de borracha já não me cabiam e precisava de viver a vida que nunca me deixaram viver. Tudo muito bonito e emocionante, mas ainda hoje sonho viver num apartamento com um terraço ou um quintal, com cadeiras e flores, onde possa juntar os amigos e fazer churrascos e ter um cão e apanhar sol e todos esses detalhes muito mais bonitos e emocionantes. É que bem vistas as coisas, eu continuo a ser uma menina do campo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Beijinhos, La Bohemie.