Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

La Bohemie

A saga dos pleonasmos.

Se há coisa que me deixa “cega dos olhos” são os pleonasmos, não os literários utilizados em textos de autores conceituados, mas os vícios de linguagem que usamos sem darmos por eles e que não passam de uma redundância inútil. Lá em casa sempre fui a burrinha da família, a desgraçada que dizia disparates sem nexo, não conseguia assimilar uma ideia ou compreender uma piada seca e ficava a contemplar o horizonte com ar de… monguinha. Portanto, desde cedo que o meu querido irmão começou a chamar-me “loira burra”. Ora, eu era loira e, como já referi no parágrafo acima, era mesmo burra, por isso achava que ele era apenas sincero duas vezes, e sorria. Bem dizem que a ignorância é um estado de felicidade. Quando estudei as figuras de estilo e descobri o significado de pleonasmo, decidi ser só burra e comecei a pintar o cabelo de castanho, estragando todo e qualquer argumento utilizado contra mim. Ainda hoje oiço «És mesmo lou… ah não, agora és só burra.» Acho que fiquei tão traumatizada por ser loira e burra que hoje tornei-me uma verdadeira caçadora de pleonasmos. Mas há alguns que me provocam uma verdadeira crise de urticária eczemática.

 

As pessoas que dizem «há um mês atrás...» são as mesmas que afirmam «subir para cima» e «tenho um amigo meu», não são? Eu entendo que para muitos de nós um mês seja uma eternidade, mas não é necessário referir que foi lá atrás, num passado longínquo, quando já se conjugou o verbo haver, a não ser que guardem meses no porta-bagagens. E alguém me explique como é que se sobe para baixo, por favor. A sério, gostava de saber o truque deste feito mágico para poder entrar no Guinness World Records. E “tenho um amigo meu” é simplesmente delicioso, do género «Eu tenho um amigo que é meu, por isso ele é meu e só meu, ok?»

 

Cada vez que me dizem «vamos entrar para dentro que está a ficar frio» lembrem-se que sinto um arrepio na espinha e morre um neurónio bebé congelado.

 

Também sou fã de pessoas que chegam a “becos sem saída”*, “gritam bem alto” e “saem para fora”. “Eu pessoalmente” acho que é uma “surpresa inesperada”. Até fico emocionada com tanta emoção. 

 

A minha querida Mãe não é burra, mas também pinta o cabelo e não foge à regra. Não sei onde raio foi buscar o hábito de dizer «igualmente também para o senhor», mas cada vez que a oiço responder isto a um paciente, dá-me assim uma tremenda vontade de desmaiar para disfarçar a situação. Já nos sentámos juntas muitas vezes, já conversámos, já tentámos detectar a origem do problema, fizemos uma regressão e nada feito. É por esta e por outras que me saí na Páscoa com a infeliz frase «Coitadinho, decapitaram a cabeça do cabrito.» É isso, Mafalda, antes tivessem decapitado a tua estupidez.

 

Em relação à mítica frase «O que é que escrevemos na conclusão final do trabalho?» só tenho um reparo a fazer – Queridos colegas de faculdade, espero que agora entendam porque sempre detestei trabalhos de grupo. A sério, eu sentia-me inferior por não saber fazer conclusões finais. Tantos anos a fazer conclusões logo no início de um trabalho e chegaram-me vocês a afirmar que a conclusão se faz no final?!

 

Ainda há poucos dias li uma notícia qualquer que dizia «Através do Programa Interlocutor Local de Segurança, a GNR dá formação a 1700 parceiros civis para servirem de elo de ligação.» Um elo não é só por si uma ligação? Só para esclarecer as coisas.

 

Depois existe assim uma "pequena listinha" de expressões que me deixam completamente boquiaberta, sem saber o que "dizer com a boca", tais como:

 

«Nós devíamos conviver juntos.» - desculpa, eu sou bipolar, adoro conviver sozinha.

«Não sabes encarar-me de frente?» - Não, adoro encarar as pessoas por trás.

«Deixas-me com um sorriso nos lábios.» - Que giro, eu costumo sorrir com a testa.

«Prefiro manter a mesma postura.» - Manter a mesma é muito bom.

«Vais continuar ainda a jogar PES?» - Continuar ainda é melhor.

«Ganhe grátis uma amostra de…» - Oh, e eu que sempre sonhei em pagar uma amostra grátis.

«Estes animais vivem no seu habitat natural.» - Por favor, parem o mundo que eu quero sair para um habitat que não seja natural.  Existe?

«Então, e tens planos ou projectos para o futuro?» - Eu? Não, não, eu sou hipster e adoro planear cenas para o passado.

«Temos de criar novos empregos.» - Eu acho que se devia criar empregos velhos, é que criar algo que ainda não existe é muito mainstream

«Então e que países do mundo é que já visitaste?» - Ahhh… hummm… ainda não visitei os países do mundo, só os países do… Ui, sem comentários.

«São apenas pequenos detalhes.» - Ou usamos dicionários diferentes, ou esta treta do acordo ortográfico também alterou o significado das palavras, mas que eu saiba um detalhe é uma minuciosidade. Existem mesmo detalhes grandes? Só se for o candeeiro de tampões da Joana Vasconcelos, assim de repente.

 

«Ó mar salgado, quanto do teu sal. São lágrimas de Portugal.», Fernando Pessoa.


*Utilizando o conceito de rua estreita e curta, muitas vezes sem saída.

 

Beijinhos, La Bohemie.

4 comentários

comentar post