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La Bohemie

Não está na hora de tirares a carta de condução?

 

Se há mulheres que já não podem ouvir perguntas como «Então, e quando é que te casas?» ou «E filhos, não estás a pensar ter filhos?» eu não suporto mais que me perguntem «Não está na hora de tirares a carta?» Não, não está, não tenho um relógio automóvel dentro de mim que se põe a buzinar de madrugada a reclamar que quer tirar a carta de condução. Eu sei, é o horror, o terror, inconcebível ter quase 24 anos e ainda não ter carta de ligeiros, ai-meu-deus que vai ser da Mafalda, coitadinha, que anda de transportes e isso é tão démodé. Poupem-me. Eu sei, é um drama toda a gente na família conduzir menos eu, é um crime que a minha irmã mais nova tenha tirado a carta ainda com dezassete anos e que eu não sinta a mesma necessidade, é horrível. Poupem-me, mais uma vez.

Depois há teorias absolutamente espectaculares como «Não me digas que não gostas de conduzir que já te vi a meter até quinta sem qualquer problema.» Estava num parque de estacionamento completamente vazio no Parque das Nações. «Isso é tudo mania, que tu adoras conduzir o jipe e fazer derrapagens com o travão de mão.» No meio do campo, na quinta onde só existem vacas e a cabras a pastar dentro da cerca. «Vês, conduziste isto tudo até casa e não houve problema.» Por favor, numa urbanização onde passam carros de hora em hora. «Se não tiraste até agora, nunca mais vais sentir necessidade de tirar.» Claro, porque se eu não me matei até agora, nunca mais vou sentir necessidade de me suicidar. Como a velha máxima de «Já tens trinta anos e ainda não casaste, vais virar tia e cuidar dos filhos dos outros.» Mas a melhor teoria até hoje foi esta: «Tens mesmo ar de quem não conduz.» Ora aqui está alguém bastante perspicaz, como eu gosto, nem preciso de abrir a boca que consegue ler a placa invisível que carrego ao peito «E-u-t-e-n-h-o-m-e-s-m-o-a-r-d-e-q-u-e-m-n-ã-o-c-o-n-d-u-z.» Evitam-se logo explicações de que tive um e tantos outros acidentes que me marcaram uma vida e que tenho pânico de conduzir; que não sou eu, são os outros; que sou um caso perdido; que já fiz terapia e ainda assim não tirei a carta; que até gosto, mas não sinto necessidade; que às vezes até me apetece mas depois como um chocolate e passa a vontade de fazer outra vez exames aos olhos e chumbar logo na primeira tentativa de ler as primeiras letras do quadro oftalmológico; que ainda não quis, ainda não precisei, ainda tantas outras coisas que só a mim me dizem respeito.

Qualquer dia começo a distribuir panfletos pelas pessoas a dizer «Já está na hora de dar umas corridinhas…», «Está na hora de fazer uma valente dieta e perder esses quilinhos, não?», «Não acha que está na hora de sair de casa dos paizinhos e fazer-se à vida?», «Ganhe mas é juízo e arranje tempo para ler um livro, fazer uma viagem, adoptar um cachorrinho.» Cada um sabe de si e eu sei de mim, por isso preocupem-se lá com as vossas vidinhas e deixem a minha sossegada, se fazem o favor.

 

Beijinhos, La Bohemie.

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