Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

La Bohemie

Quarto escuro - ensaio.

Acordas e perante a escuridão do quarto mergulhas num vazio húmido e sedoso. Com o corpo imóvel observas o que te rodeia e apercebes-te que tu próprio és o vazio, o sufoco, o nó de uma corrente depressiva e emaranhada. Gritas, mas ninguém te ouve, nem tu mesmo. Tentas mover-te mas o peso da tua dor é de tamanha dimensão que estás amarrado por cabos inquebráveis. Choras. Choras tanto que o peito te dói, aperta, falta-te o ar, falta-te a força. Fechas os olhos inundados em lágrimas e revês todo um passado preso na margem de um rio. Não acreditas na veracidade do que sentes e desejas, tudo é estranho, desfocado, escuro e por isso não consegues imaginar um futuro próximo. Queres morrer. Desejas morrer porque na verdade o teu corpo está temporariamente morto. Manténs os olhos semicerrados para não encarar a escuridão do quarto, da vida e dos dias sem luz, sem esperança. É um estrondo mudo, é um grito calado, é uma dor que te tortura. Mexeste um dedo, movimentaste um mão para pedir ajuda, mas receias que seja o primeiro passo para um outro tipo de vida, uma nova oportunidade, uma última chamada para um voo sem destino marcado. Cobres-te com um cobertor mais pesado do que a tua própria alma e ficas deitado até se evaporar o ar, até se esgotar a vontade de chorar. Dormes. Dormes tantas horas que quando voltas a acordar parece terem passado meses ou até mesmo anos, porque o tempo do vazio é muito mais veloz, muito mais acelerado, muito mais invisível. Tens fome, tens sede. Tudo sentes e nada desejas, pouco consegues.

A depressão é um poço tão fundo, tão escuro e vazio. A depressão é o teu corpo extinto, a tua alma apagada, a tua cabeça desligada de uma realidade que ninguém entende, ninguém consegue perceber. És um corpo vazio num mundo tão cheio, és apenas mais um ponto num íntimo sombrio a olhar um céu alto e luminoso.

A luz queima-te os olhos, o corpo desfalece lentamente, a cabeça desfaz-se em bocados por entre o vazio dos sentidos do teu próprio ser. Não sabes o que sentes porque desconheces o seu significado, não sabes explicar o porquê e abdicas de procurar ajuda, desistes de elevar o dedo com medo que venha alguém descriminar-te e julgar-te. Enquanto morres, esperas que a luz do alto do céu desça até ti e ilumine o poço onde te encontras imóvel. Tens medo, sentes tanto terror de não voltar a ter força e vontade que desesperas com essas amarras que prendem o teu corpo e não libertam a tua aura. Encontras-te num estado tão apático e incolor que perdeste o rasto da silhueta dos teus sonhos e desejos, sentes-te confuso e perdido e nada mais te faz sentido. Mas um dia acordarás com o sol a rasgar as cortinas do teu quarto escuro e percebes que estás a desistir de uma vida que nunca desistiu de ti.

 

Beijinhos, La Bohemie.

1 comentário

comentar post