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La Bohemie

Eu e os números ímpares.

Parece que esta história de eu não gostar de números pares suscita alguma curiosidade a muita gente e surgem perguntas fantásticas como «Só calças uma sapatilha?», «Como fazes com os dias pares, ficas fechada em casa a chorar virada para a parede?», «Só pinas em dias ímpares?» Pois, não, tenham lá calma com os sintomas obsessivo-compulsivos que não sou assim tão maluquinha para me pôr a talhar um dedo do pé ou arrancar um olho a alguém só porque sou obcecada por números ímpares. Mas como o interesse tem sido recorrente nos últimos dias pelo Twitter, tomei a liberdade de fazer uma lista da minha relação com os números.

 

- O meu despertador toca sempre às 07h07 ou às 07h27. Ou às 06h57 ou qualquer coisa terminada em sete.

 

- Só faço chamadas ou envio mensagens em minutos ímpares. O mesmo acontece para abrir uma mensagem – foi assim que aprendi como é doloroso esperar quase um minuto para ler uma sms, não fosse o diabo tecê-las. Se calhar por ventura escrever uma mensagem a alguém e forem 14h12 espero até aparecer o minuto 13 no visor. E o mesmo acontece com os caracteres das mensagens, têm de ser obrigatoriamente ímpares.

 

- O volume do rádio tem de estar posicionado num número ímpar, claro. Quem andar de carro comigo repara que a primeira coisa que faço é colocar o cinto e depois confirmar o som do rádio; ou quem vir televisão ao meu lado também reparará certamente que ando sempre numa guerra constante com os comandos da box e da televisão.

 

- Quando vou ao cinema ou compro um bilhete de autocarro da Eva (não é publicidade, mas se fosse da Carris perdia o sentido da coisa), mesmo antes de me perguntarem se é com cartão jovem, já estou a exigir um lugar ímpar, seja ele qual for. Anteontem vim para Lisboa e deram-me um bilhete com o lugar 22. Eu odeio o 22, abomino. Fiquei tão, mas tão mal disposta que pedi às assistente de bordo para me trocar de lugar com a ameaça de vomitar dentro de minutos.

 

- Também não gosto de viajar em dias pares. Por vezes nada há a fazer obviamente, mas já perdi um avião quando regressava de Barcelona e meti na cabeça que tratava-se de mau presságio por ser dia 20. Com o carro avariado no meio da auto-estrada, sorri sorrateiramente e lá cheguei ao aeroporto toda contente para comprar um novo bilhete para dia seguinte, 21.

 

- Em restaurantes de sushi ai de quem coloque quatro sashimis no meu prato, leva logo com os pauzinhos em cima. Tem de ser tudo a três de cada vez (estamos a falar de SUSHI) ou um total de peças ímpar. O mesmo se passa quando compro gomas na Hussel (também não é publicidade, mas se comprasse sacos de gomas no Pingo Doce perdia novamente a lógica da questão). Escolho três gomas de cada vez, vou somando e somando e no final, se estiver par, acrescento mais uma goma, coitadinha. Claro que passo por todo este processo em silêncio para que ninguém tenha vontade de me internar num hospital psiquiátrico na hora.

 

- Quando vou ao supermercado é que são elas. Só enfio para dentro dos sacos de plástico peças de fruta ou legumes em número ímpar. Cinco maçãs, sete bananas, onze cebolas, como se fosse uma criancinha a contar os lápis de cor. Só compro embalagens de carne ou pão com preço ímpar. Se quiser um lombo de porco e custar 8,36 euros não o levo. O preço tem de terminar em número ímpar senão não há comida para alguém. Também só trago enlatados, pacotes de café, açúcar, massas e coisas que tal em número ímpar. Quando vou com a minha Mãe às compras tenho de andar sempre de volta do carrinho para controlar o número de frascos de salsichas (essas sonsas que só vêm de 6 em 6 ou de 8 em 8, parvalhonas), de pickles ou de maionese. Também só retiro artigos que estejam em terceira fila, os da primeira são mexidos e remexidos por toda a gente, por isso salto logo para a terceira rodada de produtos, mesmo quando a porcaria da caixa das canetas Bic se encravam e cai-me o expositor aos pés – sim, já aconteceu. E as caixas? Ui, a minha Mãe tem muitos ataques de nervos no supermercado porque eu recuso-me a ir para uma caixa par e, normalmente são as que estão abertas. E para onde é que a menina Mafalda tem tendência para ir? Precisamente para a caixa de prioridade que é ímpar e está sempre cheia de grávidas e velhotes mais lentos do que o processo do Isaltino Morais. Já cheguei a fazer uma fita monstruosa no Pingo Doce de Arroios (também não é publicidade, é apenas para ter três parêntises com este exemplo) porque não desandava da caixa número cinco com as restantes vazias e as senhoras com ar de poucos amigos a chamar-me como se eu fosse uma atrasada mental.

 

- As senhas são outro problema, porque se há o azar de me calhar uma senha par, lá tenho de esperar que chegue alguma alma caridosa ao Centro de Saúde ou às Finanças para ficar com a minha senha e poder retirar outra. Não gosto de desperdiçar papel. 

 

- Depois há assim manias pequeninas como só rodar as chaves de casa uma vez, ou parar sempre no sétimo degrau num lance de escadas, não entrar em carruagens do Metro que tenham números pares, entrar na primeira ou terceira ou quinta porta das carruagens do comboio, ficar meia hora numa loja de telemóveis a escolher um número ímpar ou evitar marcar primeiros encontros em dias pares.

 

- Para as pessoas que possam estar preocupadas com a minha vida sexual, não se preocupem, eu dou a desculpa de que sou bipolar, divido-me em duas e dou a volta à situação, somos três num instante. 

 

- Então e situações assim à maluca que já me tenham sucedido? Já me aconteceu há muitos anos conhecer um rapaz e na altura em que começámos a dar umas voltas, ele ia a beijar-me e eu recusei porque era dia seis. Depois compensei no dia sete. Também cheguei a alterar a data de uma operação de um dia par para o dia cinco, senão não queria ser operada. Quando há quase três anos voltei do Brasil e vim ver esta casa para arrendar, a primeira coisa que pensei foi «Caramba, não pode ser, é prédio número 118 e segundo andar direito, não, não e não» e vinha a descer a Alameda enquanto resmungava com o azar de ter gostado tanto da casa, quando me cruzo com a ex-namorada do meu ex-namorado e o meu querido irmão ainda teve a ousadia de ficar a falar com ela. Fiquei a contemplar a fonte luminosa, claro, quando a vejo toda cercada por polícia e Inem com um cadáver estendido no chão. Pensei mais três vezes que não, mas infelizmente precisava urgentemente de uma casa e por cá fiquei, e cá entrei no dia 22. Há uma lógica para vos escrever hoje. Quando fiz 22 anos fiquei tão deprimida que andei um ano a dizer às pessoas que tinha 21+1. Sim, «então e quantos anos tens?», «Vinte e um mais um». Oi?! Mas esta não regula lá muito bem da cabecita, coitada, qualquer dia põe-se a dizer que tem 33.517 semanas de vida. Também comecei a namorar com o M. no dia 22 e fiquei noiva num dia par e a coisa não correu muito bem. Repito, eu odeio o número 22.

 

- Sim, o nome Mafalda tem sete letras, Sofia cinco, Martins sete e Saraiva sete. Ah e tal, mas o nome completo tem 26 letras. Pois tem, por isso nunca assinei em lado algum o nome completo, a minha assinatura é a coisa mais simples que se possa imaginar. Sim, também nasci no dia um e a data de nascimento completa e somada dá nove. Já fiz a prova dos nove sobre a minha vida e acho que nasci mesmo para odiar números pares. Calço o número 37 e, apesar de vestir o tamanho 34, os números somados dão sete e eu sou uma pessoa feliz com as soluções que encontro para os problemas numéricos.

 

Eu sei, é surreal, estúpido e um bocado a dar para o doentio, mas já falei sobre este assunto com o meu psicólogo e já me garantiu e explicou que não é um comportamento obsessivo-compulsivo grave, porque se fosse eu andava a contar os bagos de arroz que coloco no prato, arrancava um dedo da mão e outro do pé, não vivia nos dias pares, contava os fios de cabelo, só via de um olho e ouvia de um ouvido. Ele diz que é mais vício e mania ou hábito do que outra coisa qualquer. Eu não vivo constantemente a pensar nisto, aliás, nem penso, faço-o naturalmente, sem que os outros se apercebam, a não ser que assuma e mostre o meu comportamento. Sou coleccionadora e se fosse mesmo grave eu contava os itens de cada colecção e não, não fico noites a contar mais de 8.000 pacotes de açúcar ou caixas de canetas, lápis e isqueiros, não faço ideia de quantos frascos de areias tenho nem se possuo 10.331 ou 10.335 postais. Roupas e sapatos nunca são demais por isso já lhes perdi a conta. Portanto, não sou uma esquizofrénica que se deita no Parque da Alameda às 23h33 a contar as estrelas do céu antes de ir dormir. Espero ter-vos esclarecido e quando me lembrar de mais qualquer coisinha, eu partilho.

 

P.S – Texto com três páginas, 1.605 palavras, 7.019 caracteres sem espaços, 8.627 caracteres com espaços,  terminado de escrever às 18h23 e terminado de rever às 18h45

 

Beijinhos, La Bohemie.

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