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La Bohemie

Os loucos de Lisboa.

Sou pessoa que gosta de trabalhar de noite. Há quem diga que a noite é mágica e que a inspiração vem com a magia dos astros, com a tranquilidade do silêncio, mas sempre me habituei a trabalhar de noite e a dormir poucas horas. Os dias sempre foram passados na faculdade ou no trabalho e as minhas aulas e ensaios de teatro eram num horário pós-laboral, por isso nunca chegava a casa antes da meia-noite e, como tal, habituei-me a jantar, a escrever e a deitar-me muito tarde, ou cedo, dependendo da perspectiva de cada um. Mas se pensava que era a única a ter vidinha a más horas, enganei-me redondamente. Pois então, depois de muitas e longas noites mergulhada nas minhas escritas e projectos pessoais deparei-me com algumas rotinas alheias:

 

- O vizinho do prédio da frente passa a noite inteira à frente do computador. Já me passou pela cabeça ser um daqueles escritores que passam as noites de cigarro na boca a escrever livros atrás de livros, mas não, deve ser apenas uma daquelas pessoas cujo pacote de internet permite fazer os downloads que quiser das 21h30 às 09h30 e por isso dorme de dia e joga de noite.

 

- O meu frigorífico parece que ressuscita lá para a uma ou duas da manhã. No início pensei tratar-se do meu estômago a implorar por comida, mas depois achei demais e investiguei a casa toda à procura do maldito barulho. Frigorífico. Nem sei descrever a espécie de atrupido, mas imaginem que estão a atravessar o Cabo das Tormentas e ecoa-vos assim ao fundo o Adamastor, é parecido. Quando descobri tratar-se do frigorífico pensei que ia desta para melhor, que estava a dar as últimas e que lhe ia dar um enfarte mesmo ali à minha frente, mas não, lá me explicaram que é o barulho comum de todos os frigoríficos (duvido que um frigorífico Smeg lindo e maravilhoso faça este tipo de barulhos, mas pronto) e que eu só atentava o som à noite por causa do silêncio. Acreditem que é assustador, muitas vezes estou eu muito bem na minha cama, naquele sono meio leve, meio profundo, quando oiço um estalo tão grande que penso logo que vão saltar do congelador pedregulhos de gelo.

 

- Um dos barulhos mais estranhos neste prédio vem do terceiro direito, onde vivem precisamente…ninguém. É verdade, quando me mudei para esta casa e ouvi o barulho de pegadas de animais pela primeira vez, estava na cozinha a preparar o jantar. No início não me surpreendeu, os vizinhos de cima tinham um cão ou um gato e desde que estes não se pusessem a ladrar ou a miar com o cio, estava tudo bem. Mais uma vez, os barulhos ecoavam com maior intensidade à noite, tanto que cheguei a pensar que o pobre do gato (feitas as minhas contas só podia tratar-se de um gato porque nunca vi ou ouvi um único cão escada acima, escada abaixo durante um ano) deveria estar fechado na cozinha e à noite, quando eu estava na minha cozinha, ouvia as pegadas do mesmo desesperado de um lado para o outro. Toda esta história muito natural e enfadonha, até o dia em que o vizinho do terceiro esquerdo lembra-se de me oferecer um guarda-vestidos e eu subi um andar com um amigo para o irmos buscar. Estava eu preparada para entrar pela casa, quando o senhor abre a porta do terceiro direito. Fiquei parva, então o homem vive no terceiro esquerdo, oferece-me um guarda-roupa e vai buscá-lo ao terceiro direito, à casa de outros vizinhos? Rapidamente passou-me pela cabeça que o estupor do vizinho era mas é dono do andar todo e tinha uma casa e pêras, quando me diz com um ar muito natural «Esta casa está vazia há dez anos menina, o dono foi para a terra dele e deixou-me a chave se fosse preciso alguma coisa.» Pronto, estava explicado. Entrei e a casa era completamente diferente da minha, muito mais ampla e com menos paredes. Senti-me tentada em encontrar o dono do apartamento, ligava-o ao meu e ficava com um agradável duplex com o dobro do tamanho. Mas ideias parvas à parte, assim que carregámos o guarda-roupa com quatro vezes o meu peso, pensei «Porra, não vive ninguém por cima de mim, de onde raio vem o barulho de pegadas à noite?» Juro-vos que ainda hoje este mistério me tira o sono. Os meus seguidores no Twitter sabem bem do que falo.

 

- Outra coisa que me faz uma confusão é o prédio do lado. Já percebi que os vizinhos vivem num duplex porque o raio do puto (a mãe passa a vida ameaça-lo tirar-lhe a Play Station por causa das más notas) passa o tempo a subir e a descer as escadas. O que me faz confusão é que essas mesmas escadas sejam de metal. Metal, senhores. Eu sei que em prédios antigos a coisa é normal e até lhes pode dar um ar a dar para o vintage, mas tinha logo de ser no prédio colado ao meu, onde as paredes mais parecem de cartão? A sério, cada vez que alguém as sobe ou desce parece que vai cair um andaime, um tabuleiro de uma ponte ou uma construção feita de latas, tal é a chinfrineira.

 

- Acho que tenho problemas de audição e isto é mesmo grave, muito grave. O vizinho do rés-do-chão esquerdo todos os dias mete conversa com a vizinha do rés-do-chão direito, seja a que hora for, e volta e meia põe-se aos berros “Paula, oh Paula” até a vizinha aparecer no quintal. E eu não sei como mas oiço “Mafalda, oh Mafalda”. Eu juro-vos que já larguei todos os comprimidos, o meu psicólogo diz que estou a melhorar, mas ou oiço messsssssmo muito mal ou ando com a mania da perseguição. Hoje em dia não ligo muito, mas no início aquilo incomodava-me tanto que a minha irmã já não me podia ouvir ao telefone «Mas como raio sabe o vizinho o meu nome?», «Hoje o vizinho voltou a chamar pelo meu nome», «Mas neste prédio ninguém sabe que sou Mafalda», «Ele chama-me tantas vezes porquê?».

 

- Por fim, alguém pode explicar-me a razão do camião do lixo passar às 3 e 4 da manhã? Acham que não faz barulho? Acham que ninguém dá por ele? Alguma vez lhes passou pela cabeça que nem toda a gente tem o sono assim tão pesado e que acorda até com o barulho de uma mosca, tipo eu?

 

Beijinhos, La Bohemie.