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La Bohemie

Maldita dor de dentes.

 

Se há pessoas que são capazes de se atirar de uma ponte por causa de dores menstruais, se há pessoas que são capazes de fazer tripas coração por causa de um desgosto amoroso, eu sou capaz de destruir uma casa por causa de uma dor de dentes. Não, nunca tive daquelas crises que servem de desculpa para não fazer educação física, mas já fui operada ao útero e sei o que é ficar em casa durante duas semanas sem me poder mexer com dores insuportáveis. Não, nunca tive vontade de cortar os pulsos por causa de uma valente discussão ou fim de namoro, mas já dei cabo de muitas caixas de chocolate para me consolar. Eu sou a rainha das dores de dentes e não há bombom de chocolate que me salve. Nunca usei aparelho, nunca tive os dentes tortos, mas calhou-me logo a bela merda de ter os quatro dentes do siso, daqueles que não andam nem desandam, daqueles que nascem à velocidade da justiça em Portugal, daqueles que não se dão por vencidos e levam anos a nascer e uma pessoa que se aguente com as dores porque ninguém os consegue arrancar. Os dentes do siso são a coisa mais ridícula que Adão e Eva lembraram-se de criar. Servem para rigorosamente nada e parecem aqueles putos chatos que berram por razão nenhuma e atrapalham a vida de uma pessoa. Também faço parte daquele leque de pessoas infelizes e incompreendidas pelo mundo que sofrem com as alterações de temperatura, ora a comida está muito quente, ora está muito fria e não há quem se entenda nessa bipolaridade constante que me arrasta para o maldito consultório de quinze em quinze dias. Vou ao dentista há tantos anos que já cheguei a adormecer numa consulta. Já levei tantas anestesias que chegaram mesmo a desvitalizar-me um dente a sangue frio. E nada disto é comparável a uma dor de dentes, acreditem. Eu bem que vou lá vezes sem conta levar com uma injecção que faz não sei o quê aos nervos, à raiz do dente e ao osso do maxilar, mas como os sisos são uns estupores da pior espécie lembram-se de me fazer sofrer sempre dois dias antes de cada consulta. E há duas noites que tem sido assim, uma pessoa a dormir na paz dos anjinhos e o raio do diabo lembra-se de me acordar de madrugada com dores infernais. Ontem espalhei as caixas dos medicamentos pelo quarto de banho à procura de um Clonix que me salvasse, hoje virei mesmo a casa do avesso e nada, nadinha. Eu bem que tento explicar à minha dentista que as minhas dores só passam com Clonix, que o Ben-u-ron, o Zaldiar ou Spidifen nada me fazem, mas não, não pode ser porque o Clonix é muito forte e faz mal e só pode ser consumido em casos de desespero. Como se todas as minhas dores de dentes não fossem um verdadeiro caso de desespero, aquela dor que passa pelo ouvido e sobe à cabeça, aquela dor que provoca uma enorme vontade de arrancar dente a dente com um alicate de pontas, aquela dor que qualquer dia obriga-me atirar de uma ponte ou cortar os pulsos. Deviam existir caixas de chocolates para as dores de dentes.

 

Beijinhos, La Bohemie.

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