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La Bohemie

Orgulho e preconceito.

«Estás a ser burra. Só vais para essa área porque queres fugir da Matemática. Os jornalistas são todos uns burros», disse-me o meu pai um dia. «Línguas e Literatura? Mas a menina é óptima aluna, adora arte, porque não vai para Design?», perguntou-me a minha mãe um dia. Não fui, deixei as ciências e as artes para os meus irmãos. A minha arte era outra, a da escrita, a do conhecimento, da cultura, da representação. Nunca um 18 ou 19 foi motivo de orgulho naquela casa, porque estava a estudar para um futuro fraco e incerto, porque nunca seria alguém numa redacção ou num palco e, por isso, de nada servia chegar a casa com boas notas. «Dezoito valores? Quem tira essa nota, tira um vinte. Basta quereres», ouvia regularmente. Não é fácil explicar a um pai da área da engenheira e matemática e a uma mãe da área da saúde que se quer ser actriz. E jornalista. «Actriz? E vais comer o quê? Pão? Isso é profissão de pobre. Se queres ser jornalista, tiras Direito e fazes jornalismo de qualidade. Hoje qualquer pessoa escreve», categorizava o meu pai. Foram três anos a carregar mágoa por ter desiludido os meus pais, foram três anos vividos com raiva e lamento por nunca se orgulharem de mim, foram três anos que me tornaram mais forte, mais madura, mais determinada. Depois saí de casa. E foi precisamente o orgulho que nunca lhes proporcionei que me incentivou a escrever mais e melhor, a viajar, conhecer o mundo e a suas origens, os cheiros, as culturas. E um pouco desse mundo está hoje exposto nesta parede. Os meus sonhos, as minhas viagens, o meu orgulho. Hoje sinto-me orgulhosa.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Beijinhos, La Bohemie.