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La Bohemie

Um amor e uma cabana.

«Não sei que aperto é maior. Se aquele que tinha por te querer, à viva força, conhecer e não poder, ou se o que tenho agora por já te conhecer e não te poder ter. Tenho passado o dia muito sentimentalista. Sinto-me apaixonado. Olhar um casal a beijar-se traz-me recordações; olhar as coisas que me deste traz-me recordações. Estive longe, nem sei onde estive. Para onde quer que olhe visualizo, como a Dona Fernanda diria, imagens do dia d’ontem. Sinto, por vezes, o teu perfume. Procuro o teu perfume no ar, mas não o encontro. Desanimo. Penso em ti. Tanto. Muito. Muito. Tanto. Seria capaz de continuar aqui a escrever “Muito” e “Tanto” até preencher sete linhas. Não o vou fazer. Mas tenho vontade de fazer isso, e muito mais. Tenho saudades tuas. Tenho uma enorme vontade de te dizer mil e uma coisas, mas não consigo. Tenho o vocabulário estagnado. Não entendo. E agora, que já escrevi uma boa porção de palavras, sinto que estou aquém daquilo que queria exprimir. Mas, se não sei o que sinto, como é que posso exprimir? Sinto-me apaixonado, é isso. Sinto mesmo. Sinto-te, sempre. Apetece-me chorar. Já ontem, quando pensava que o nosso tempo teria, irremediavelmente, de acabar, apetecia-me chorar. Apetece-me chorar. Quero, compreendes? Compreende quão sentimental me sinto. Torna-se cómico, até. Não me sentia assim fazia muito tempo. Neste momento, a minha cabeça é uma sala cheia de malmequeres e balões coloridos em forma de coração. Há confetis espalhados pelo chão, há puffs de todas as cores. Ouve-se uma música muito calminha por trás. Uma Girls Band qualquer. E foi assim que fiquei. Foi assim que me deixaste. Não vou acreditar que me deixaste. Não deixaste, quase com certeza. Gosto de ti.

Adorei ter-te conhecido. Adorei o primeiro beijo. Adorei o primeiro abraço. Quando te vi com o telemóvel pensei que o primeiro contacto não fosse ser tão forte. Tinha idealizado que poisaria a minha viola no chão, quando te visse, te estenderia os braços. Abraçar-nos-íamos. O tempo parava. Concretizado seria o sonho mais desejado. E assim foi.

Desejava trocar um beijo contigo. Sempre imaginei que seria a meio do nosso encontro, num qualquer miradouro, ou no Castelo de S. Jorge, debruçados sobre a muralha a ver o Tagus a reflectir o sol. Nunca pensei que fosse logo no início. Foi. Senti. O coração saltou do peito. Perdi-me. Adorei.

Sempre imaginei que o nosso encontro seriam gargalhadas e muitas trocas de histórias e opiniões. Nunca me tinha passado pela cabeça que o nosso encontro poderia ser a oportunidade para fazermos tudo aquilo que este meio de comunicação não permite – sentir o toque, dar as mãos, trocar carinhos. Não imaginava que a nossa relação fosse ser tão próxima. Foi. Senti. O coração saltou do peito. Perdi-me. Adorei. Sorrio.

Estou francamente perdido entre ontem e a madrugada de hoje. Gostava de estar perdido por lá. Quem me dera que o tempo parasse. Inevitavelmente, cada vez que dou por mim a desejar uma coisa impossível as lágrimas vêm-me aos olhos.

“Um amor e uma cabana”. Último andar de um prédio da antiga Lisboa. Um quarto. Uma cama. Um roupeiro e duas mesas-de-cabeceira. Sei que não te faria uma mulher feliz naquelas condições. Contudo, farias de mim um homem feliz se te tivesse na minha vida assim. Na minha vida, constantemente. “Um amor e uma cabana”.

Foge comigo. Vamos apanhar um comboio. Vamos para a Serra da Estrela. Vamo-nos esconder no Gerês. Vamos para Vilarinho das Furnas. Não há lá nada. Existiríamos nós. Encheríamos aquelas ruas de pedra solitária com a nossa paixão. Traríamos cor ao negro do granito. Vamos para Monsanto. Abrimos uma loja de souvenirs. Vamos. Vamos. Vamos. Estou louco. Estou, não há remédio. Estou a escrever-te de uma forma louca. As palavras saem-me sem serem pensadas, nem uma vez, sequer. Desculpa. Desculpa isto.

Foi das noites mais intensas que tive. Foi das maiores loucuras que fiz. Foi uma das maiores aventuras que tive. Desculpa aquela situação chata. A culpa não foi tua. Sinto-me tão estúpido. Lamento tanto. Desculpa. Por favor, perdoa-me. Perdoas? Sentia-me bem, nos teus braços. Por favor. Que erro crasso. Adoro-te.

Tenho a cabeça quente. Tenho os sentimentos à flor da pele. Na minha pele tenho vestígios da tua respiração. Tenho o sabor dos teus beijos. Tenho a impressão das tuas carícias. Tenho a tua transpiração misturada com a minha. Tenho os cheiros da paixão. Sinto-te tão aqui. Quero chorar. Inevitável, está a acontecer. Não quero. Quero, mas não agora. Quero, quando estiver deitado na minha cama, no silêncio e no escuro. Quero meter-me num comboio e ir para a estação onde me esperas. Quero ter carro e fugir daqui. Quero, mas tenho que ser sensato. Desculpa estar a ser tão compulsivo. Desculpa estar a ser assim. Provavelmente, nunca te escrevi assim. Já, pensando bem. “Porquê”.

Oiço Jeff Buckley a cantar Hallelujah. Adoro a música. Penso naquela esquina onde, à distância de pouco mais de vinte e quatro horas nos juntámos, perdidos em beijos gelados e com sabor a caramelo, a decidir a nossa noite. Foi a noite mais maravilhosa.

Contenho-me para não chorar, novamente. Parei a música. Respirei fundo. Já conheces bem a minha mais profunda inspiração, não já, meu amor?

Fez-se um compasso de espera…

Inevitavelmente enxaguo as lágrimas com a manga da camisola.

Ontem senti que a vida era muito simples.

Desculpa, tenho que parar de escrever durante alguns minutos. Não aguento.

Mais calmo.

Aprendi que as pessoas é que fazem a vida complicada. Foi tudo simples. Um primeiro beijo foi simples, uma troca de afecto foi simples. Subir um vão de escadas indo ao encontro de um futuro incerto foi, no fim, simples. Passar uma noite contigo foi simples. Fazer uma refeição contigo foi simples. Foi tudo muito simples. Foi um sonho.»

T.G. 

Fevereiro, 2007.

 

Beijinhos, La Bohemie.