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La Bohemie

O casaco perdido.

O melhor lugar para se perder objectos pessoais é no teatro e – não fosse eu menina para gostar do bom e do melhor – é precisamente onde perco tudo e mais alguma coisa, no teatro. No início começa por ser apenas uma caneta ou outra, um lápis aqui, uma lapiseira ali. Depois passa-se pela fase em que o guião, bonito e encadernado, já está mais que sublinhado, riscado e com folhas soltas – só se dá por falta delas quando chega a hora de rever todas as falas e faltam páginas, confesso-me culpada. O verdadeiro problema dos ensaios iniciais é que acaba-se por utilizar objectos pessoais como amuletos e são justamente esses objectos que eu, cabeça no ar e na terra, perco. O relógio que estava a mais, o caderno que fazia falta, os óculos que são essenciais, veste casaco, despe casaco, coloca brincos, retira brincos. E depois? Depois vêm as cenas seguintes, os objectos ficam em cima de uma qualquer mesa, segue-se o intervalo para descanso, volta-se a ensaiar e boa noite e um queijo que já é tarde e eu quero ir embora para casa. E os tais objectos pessoais nem vê-los, esses ficaram perdidos e abandonados na sala de ensaios, tal qual fazia o Andy com o Xerife Woody e o Buzz Lightyear. Eu, que estimo imenso as minhas coisas, só me lembro delas quando preciso, mas é tarde demais, ninguém viu, ninguém sabe onde está, ninguém nada. Sempre me disseram que sou bastante arrumada e organizada, mas começo a achar que anda tudo redondamente enganado. Eu, eu mesma, já deixei ficar nos camarins do Tivoli umas sandálias pretas com tachas, um ferro de cabelo e um rímel que adorava com todas as minhas forças. Mas não foram suficientes, quando lá voltei, só estava o ferro, estragado. Eu, eu mesma, já assisti à perda de um portátil na Casa da Música e nunca foi encontrado, coitado. Eu, eu mesma, já perdi as minhas sapatilhas pretas favoritas, num convento perdido em Ílhavo. Quando liguei para as freiras do estaminé ninguém sabia de nada, ninguém vira nada. Uma tristeza.

 

Desde que estou nos Artistas Unidos já perdi três vezes o mesmo casaco, preto – acho que o preto faz jus à sua perda e ao seu luto. A primeira vez andei duas semanas à procura dele, procurei em todas as malas, nos quartos, revirei os armários todos, verifiquei a roupa suja, a roupa lavada, a máquina, o estendal. Nada, nadinha. Fui dar com ele encafuado atrás de uma almofada numa poltrona que raramente utilizo, mas onde alguém se sentou. A segunda vez tinha a certeza que o trazia comigo para casa, só não sabia onde estava. Na hora de sair novamente para o ensaio não sabia do casaco, procurei uma, duas, três vezes, mas desisti. Desço as escadas, abro a porta do prédio e entra a minha vizinha do andar de cima: «Por acaso não perdeu um casaco preto? Encontrei-o há dias aqui caído no chão, mas a minha filha diz que não é dela, pensei que só podia ser seu». Claro que só podia ser meu, sou a única atrasada neste prédio que usa casacos pretos, não é? Foi amorosa e, quando cheguei a casa à noite, tinha o pequerrucho pendurado do corrimão das escadas. Afinal só o perdi duas vezes mas, como eu e os números pares temos uma relação complicada, inventei uma terceira perda. Perdi-o mesmo, para todo o sempre, o casaco é da minha irmã e fez questão de o levar, a sonsa. E esta história toda só mesmo para usufruir da desculpa que preciso urgentemente de comprar um casaco preto. Um destes.

 

 

 

Beijinhos, La Bohemie.

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